António e Isabel Melo são dois dos rostos dos Amigos da Paróquia de São Sebastião que têm desenvolvido diversas atividades para angariação de fundos com o objetivo da preservação e restauro do património arquitetónico, artístico e iconográfico da igreja. O grupo de paroquianos, apadrinhado pelo padre Casimiro Henriques, que chegou à paróquia há seis anos, conseguiu atrair também a comunidade setubalense para esta missão, com a realização de eventos culturais, entre os quais, os “Vinhos com Arte”, espetáculos musicais, e o lançamento de um livro. Para António Melo, pretende-se “a ligação da arte da Igreja à comunidade, levando a cultura à população de Setúbal”. Atualmente estão a desenvolver a iniciativa “Ajude-nos a Restaurar a Tela do Retábulo da Capela-Mor da Igreja de S. Sebastião”, designada por “A Distribuição dos Rosários”.

Florindo Cardoso
Setúbal Mais – Como surgiu a ideia de criar os Amigos da Paróquia de São Sebastião?
António Melo – Os Amigos da Paróquia de S. Sebastião de Setúbal são um grupo de paroquianos que nasceu com a chegada do padre Casimiro Henriques há seis anos, que lançou o desafio para a recuperação urgente do património da igreja, perante a sua visível degradação. A igreja, construída em 1553, rica em património e em comunidade ativa, sofreu uma grande degradação fruto da sua antiguidade e da própria dimensão. Apenas nos anos 90 ocorreram recuperações parciais com o padre Álvaro Teixeira, nomeadamente o seu importante órgão de tubos, mas a falta de manutenção durante muitos anos posteriores e o envelhecimento da comunidade, levou a uma degradação do monumento. Foi assim que, vencendo o inconformismo, nasceram os Amigos da Paróquia que, com o dinamismo e incentivo do seu pároco, se empenharam em várias iniciativas ao nível da cultura e angariação de fundos, com vista à recuperação arquitetónica, artística e iconográfica da Igreja. Todas estas ações e obras conseguidas, envolveram as comunidades paroquial e setubalense com artistas e mecenas, na perspetiva de que temos um património classificado de interesse público e que é de todos.
Setúbal Mais – Desde a sua criação, o que já foi possível realizar?
António Melo – Este grupo começou desde logo a desenvolver e a pensar ações a curto e médio prazo, começando por encetar o programa “Torne-se Amigo da Paróquia”, seguindo-se almoços comunitários, espetáculos no auditório municipal Charlot, na igreja, nos claustros da mesma e da Casa Episcopal, sempre com base em diversificados eventos culturais, que se tornaram periódicos. Foram logo lançados os “Vinhos com Arte de S. Sebastião”, com a generosa parceria da Casa Ermelinda Freitas, atingindo este ano a 8.ª edição. Têm sempre nos rótulos obras de arte, exclusivamente cedidas para o efeito, como detalhes da igreja ou obras de pintores setubalenses, como Pedro Castanheira, Maria José Brito, Dália Vale Rêgo, Eduardo Carqueijeiro, Nuno David, Alberto Pereira, Helena Carvalho Fernandes, Carlos Pereira, Madureira Pais e ainda Cohen Fusé e outros tantos. Temos a celebração anual a 20 de janeiro, dia de S. Sebastião e nosso padroeiro, sempre com uma confraternização e atividade especial. Estes eventos culturais têm reunido muita gente à volta da música (música de câmara, órgão de tubos, instrumental, coral) e têm sido cruciais para conseguir a recuperação de património. Tivemos concertos com Duo Encore, Passione, fados, Teresa Salgueiro, Rao Kyao, João Mendonza, e-Vox, Vítor Duro e Pe. Luís Borga. Cantores de música lírica como Carlos Guilherme, Manuela Moniz, Isabel Biu e organistas como João Vaz, João Santos, António Duarte, Ana Paula Russo, António Laertes, João Paulo Ferreira, Daniel Oliveira e Celina de Morais, todos reunidos à volta dos Ciclos de Órgão de Tubos e Canto. Tivemos ainda conjuntos de cordas e de sopro, como Duo de guitarras, violoncelo e Clarinetes de Palmela. Na música coral atuaram o Coral Luísa Todi, Coral Setúbal Voz, que fez uma ópera exclusiva para a igreja, os coros Mediaevus, Tutti Encantus, Coro de Santo Amaro de Oeiras e Coro de S. Vicente de Fora. Tivemos teatro “O Meu Cristo Partido” e “Os quadros de Caravaggio”. No cinema “A Serra de Agostinho” e “Dias de silêncio” de Alberto Pereira, tal como Finisterra de Carlos Sargedas. Lançámos serigrafias de pinturas de Maria José Brito, Nuno David e Rogério Chora. Tivemos ainda duas grandes exposições em museus da cidade, uma primeira de pintura e pensamento na Galeria Municipal “Arte e Néctar da Vida” e uma segunda de fotografia e pensamento no MAEDS “Espiritualidade da Arrábida”. Culminou esta com o lançamento do livro do mesmo nome “Espiritualidade da Arrábida”, com êxito nacional. Tivemos já este ano Cante Alentejano com “Aldeia Nova de S. Bento” e João Mendonza com as Adufeiras de Idanha-a-Nova, privilegiando também a música e tradições populares. Tudo isto vai no sentido da ligação da arte da Igreja à comunidade, levando a cultura à população de Setúbal.
Setúbal Mais – Através da angariação de fundos o que já foi possível fazer?
António Melo – Os fundos até aqui angariados permitiram avançar para obras cruciais de estrutura, como o telhado da sacristia e a recuperação da sua azulejaria do século XVII, o espaço da secretaria e a iluminação geral da igreja. Foram também feitas diversas intervenções nas salas da catequese, dotando-as de maior comodidade e bem estar para as crianças. O nosso ex-líbris órgão de tubos, tem sido sujeito a várias intervenções, carecendo sempre de uma contínua manutenção. Na recuperação artística e iconográfica, destacamos a intervenção do Altar de S. Sebastião e da sua própria escultura, que se encontrava em precária situação. Foram ainda sujeitas a restauro várias outras esculturas dos séculos XVII e XVIII de grande qualidade, nomeadamente Santo António, S. José das Botas, S. Tomás de Aquino, Santa Rita e vários Cristos. Também se recuperou parte da pia baptismal, vários castiçais, paramentos, diversas sacras e objetos de adorno. Teve um grande restauro o altar de Nossa Senhora do Rosário, com a intervenção da própria imagem e da magnífica pintura de grandes dimensões do pintor setubalense, Francisco Augusto Flamengo. Do mesmo modo, se recuperou uma das grandes telas do século XVIII do importante pintor régio, Pedro Alexandrino. Foi ainda feita a pintura exterior de toda a igreja, faltando apenas a fachada, que se prevê poder ser feita dentro em breve. A recuperação do magnifico corta vento, peça com mais de duzentos anos e repleta de informação alusiva a S. Domingos, será feita logo depois da pintura frontal da igreja. Acreditamos que o restauro da tela do Altar-Mor ainda se possa iniciar durante o corrente ano, atendendo a que o apoio da mesma tem sido bastante positivo.

Setúbal Mais – Como está a decorrer a campanha de angariação para a recuperação da tela do retábulo?
António Melo – Em meados de março de 2025, lançámos a ação “Ajude-nos a Restaurar a Tela do Retábulo da Capela-Mor da Igreja de S. Sebastião”, designada por “A Distribuição dos Rosários”. Trata-se de uma tela de grandes dimensões, cujas medidas são sensivelmente de 6×3 metros. A obra, segundo alguns académicos, é atribuída ao grande pintor Vieira Lusitano, embora outros defendam ser do pintor régio, Pedro Alexandrino, sendo ambos, no entanto, grandes pintores do séc. XVIII. A tela encontra-se em más condições, apresentando diversos rasgões, buracos e perda da imagem cromática, sendo o valor orçado para a sua recuperação de 12.500 euros.
Perante esta situação, lançámos o desafio à comunidade paroquial e setubalense para nos ajudarem a restaurar a referida tela, pois trata-se de um valioso património artístico que é de todos. Para a angariação de fundos, desenvolvemos uma ação específica, em que fizemos uma réplica da tela do Altar-Mor com as dimensões de 1,80×90 cm, dividida em pequenas quadriculas numeradas de 1 a 2500, que serão utilizadas na criação de um puzzle. O valor de cada peça é de 5 euros e à medida que as vendermos, vamos criando um puzzle com a imagem da tela.
O desafio feito à comunidade geral e instituições para o apoio do restauro à tela, através desta ação, tem sido muito positivo com grande aceitação de toda a comunidade, sendo que ainda nos falta muito para conseguirmos o valor necessário.
Temos também o apoio do muito conhecido pintor setubalense Rogério Chora, que nos cedeu 100 serigrafias assinadas e numeradas que poderão ser adquiridas.

Caso pretenda apoiar a recuperação da tela, poderá fazê-lo através dos Amigos da Paróquia, telefone 919 521 778 ou diretamente na secretaria da Igreja de S. Sebastião. Poderá igualmente fazê-lo através de MBWay 919 521 778 ou transferência bancária: Fábrica da Igreja P F S Sebastião NIB 0018 00000 2260633001 38 e informar para o e-mail: antoniomelo18@sapo.pt
Setúbal Mais – Quais os principais eventos previstos para este ano?
António Melo – O alcance da recuperação tem sido sempre aliar os objetivos da paróquia a um compromisso com a arte e a cultura, reconhecendo a importância que tem para a comunidade em geral, neste caso em concreto para a cidade de Setúbal. Procuramos, por isso, criar e reinventar eventos diferentes e de qualidade, levando à projeção de novos eventos culturais já calendarizados até ao final do ano. No dia 7 de junho, realiza-se o Concerto de Primavera/Verão com João Santos no órgão celesta Mustel e Manuela Moniz no canto. Um concerto diferente por ser com este tipo de órgão, já raramente usado e apenas agora divulgado por este grande organista português. A 16 de julho, inauguração da exposição “50 Anos da Criação da Diocese”, na Galeria do Quartel do 11. Os Amigos da Paróquia foram convidados a juntar-se à Comissão dos 50 anos da Diocese, o que nos honra. A 19 de Julho, terá lugar o concerto com a Orquestra de Câmara da GNR, na Igreja de S. Sebastião, também no âmbito da Criação da Diocese de Setúbal. A 27 de Setembro, o lançamento dos Vinhos com Arte de S. Sebastião e a 25 de outubro, o Concerto de Outono com Daniel Oliveira e Raquel Cravino. Em novembro, Concerto de Música Gregoriana, com o Grupo Solemmi e em dezembro, Concerto de Natal.




