Fernando Duarte, presidente da Associação de Apicultores do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina: “Os apicultores hoje têm orgulho de mostrar o seu mel”

O presidente da Associação de Apicultores do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, Fernando Duarte, revelou que a produção de mel deste ano tem “grande qualidade”, embora em menos quantidade. O responsável manifesta satisfação pela maior participação de produtores de mel no 25.º concurso regional, mas está preocupado com a falta de escoamento do produto a nível nacional e internacional.

Setúbal Mais – Há um número maior de produtores presentes no Sertão, em comparação com os dois anos anteriores. O que é que se deve a essa instituição? É positivo?

Fernando Duarte – Existe um mel, a quantidade não é muito grande, mas existe um mel de grande qualidade e demonstra também aquilo que os apicultores têm gostado do nosso concurso. O objetivo do concurso é incentivar a melhoria da qualidade. E, ao contrário de há alguns anos atrás, que há alguns apicultores que tinham vergonha de mostrar o seu mel, porque tinham alguns defeitos, ao longo dos anos esses defeitos foram sendo eliminados e os apicultores hoje têm orgulho de mostrar o seu mel.

Setúbal Mais – Considera que este concurso vai ajudar a alavancar essa questão?

Fernando Duarte – Ao longo destes anos todos, tem sido esse o nosso objetivo do concurso, o objetivo principal. Ou seja, ir colocando pequenos defeitos no mel, defeitos que não têm a ver com a qualidade, mas têm a ver com a aparência do mel, com a forma de o apresentar e as pessoas têm vindo a melhorar essa qualidade aparente e têm hoje equipamentos muito melhores e têm orgulho do mel que têm, porque é um mel de alta qualidade.

Setúbal Mais – Como foi a produção deste ano?

Fernando Duarte – Tenho de perguntar, tendo em conta as chuvas, que apesar de ter chovido muito, foi concentrado, não foi muito disperso. Sim, pois este ano tivemos esse problema no início do ano, chuva a mais. E depois tivemos o problema, logo a seguir, chuva a menos.

Ou seja, nós dependemos das plantas, as palmeias tinham abelhas suficientes, estavam bastante fortes, mas depois as plantas não tiveram irrigação necessária e secaram-se precocemente. Não foi um ano de grande quantidade de mel devido a isso, porque as plantas secaram antes de tempo, não deu tempo para as abelhas recolherem o mel que deviam ter recolhido. Na altura falou que havia uma crise da produção do mel, por causa destas condições atmosféricas.

Setúbal Mais – Como é que está a situação atual?

Fernando Duarte – Há mais ou menos produtores ou manteve-se devido aos produtores? O nível de produtores tem-se mantido. No entanto, há atividade que está a atravessar uma crise porque está difícil vender o mel. E ao contrário de tudo o resto, que a inflação tem feito subir os preços de tudo, o mel baixou o preço.

O mel, a granel, nos últimos 3, 4 anos o preço manteve-se ou baixou. E está difícil vender o mel. O mercado internacional está mais fechado porque existem grandes importações de uma coisa que chamam mel, que vê preços reduzidos.

Inclusive, na União Europeia saiu um estudo promovido pela Comissão Europeia que 40% do mel que existe no mercado, especialmente das marcas brancas, é falsificado a partir dos xaropes de milho e de arroz. E o escoamento deste produto vai para onde? Mercado interno sobretudo? Externo? Há uns anos atrás ia à maioria para o mercado externo. Neste momento, uma grande percentagem já fica no mercado interno.

Não há tanta procura internacional como havia nos países do centro da Europa. E deve ser este o nome que estava a dizer, não é? A introdução no mercado de produtos que não são mel, que vendem da China e que vão para marcas brancas. Muita gente já começou a confiar em marcas brancas, que noutros produtos poderá ser válido, mas no mel não é. Normalmente não é, com algumas exceções.

Já existem algumas marcas brancas a embalarem mel nacional e com qualidade razoável, mas a generalidade são coisas que não têm nada a ver com o mel. E são misturas de meios de vários países, da América Central e do Sul e da Ásia, da Índia e da China.

Setúbal Mais – A câmara municipal lançou agora a marca de Odemira, exatamente para promover os produtos locais, entre os quais o mel e o medronho. Acha isso importante, criar-se uma marca de “D’Odemira, para que as pessoas saibam a origem?

Fernando Duarte – É importantíssimo e porque as pessoas também. Houve uma altura que houve eliminações de origem protegidas que, no caso do mel, não tiveram viabilidade. No entanto, uma marca de localização promovida por um município, que identifica que o mel vem daquele conselho, é importantíssimo para valorizar um pouco mais, dar mais valia ao preço do mel, que está a atravessar uma crise neste momento de crescimento.