A Casa Ermelinda Freitas lançou o vinho topo de gama “Destemido” em homenagem a Manuel João de Freitas Júnior, pai de Leonor Freitas, a 5 de abril, no dia em que completaria 97 anos de vida. Um momento emocionante para a família já que antes foram descerrados e abençoados pelo bispo de Setúbal, o cardeal Américo Aguiar, os bustos de Manuel João de Freitas Júnior e da mulher, Ermelinda de Freitas (da autoria de Luísa D’Alte), os pais da atual proprietária da Casa Ermelinda de Freitas, numa cerimónia que contou com a presença de várias dezenas de convidados ilustres, entre os quais o Presidente da República.
O novo vinho criado pelo enólogo Jaime Quendera, tem uma série limitada, de apenas 2025 garrafas, com o preço de 850 euros cada, com um rótulo concebido pela artista Olga Noronha, sendo 70% castelão, vinha velha, com um ano de estágio em pipas de carvalho francês e americano, 10% de cabernet sauvignon, 10% alicante bouschet e 10% syrah.
Leonor Freitas disse estar de “Alma e coração cheios”, ao lançar “um vinho único que se chama ‘Destemido’, ao qual juntei a arte, para homenagear o meu pai, o homem que com 20 anos foi numa bicicleta a pedal ao norte para conhecer Portugal, toda esta adega era um grande obra para a altura e ainda me lembro das preocupações que houve com o seu pagamento, era uma pessoa de horizontes, via à frente de nós, dava um conselho muito sincero a todos, não engarrafou vinho, mas antes de falecer convidou os primos para fazer um grande centro de engarrafamento e começar a fazer marcas, mas ninguém aceitou”. “Ele hoje deve estar feliz, porque eu, não estando preparada para o mundo rural, mudei de Leonor para Ermelinda, o que para mim é uma grande honra”.
“Este vinho é concretização de um sonho de homenagem ao meu pai, que é topo dos topos, são só 2025 garrafas, e quero com isto valorizar a Casa Ermelinda Freitas, a região e o setor do vinho” e “neste momento que estamos a passar tantas dificuldades – devido a fatores externos – é o momento certo para dizer que temos vinhos ao nível e ao preço dos Châteaux de França, mas que estes ainda são melhores”. “Já não estamos nada atrás daquilo que se faz em França, dos grandes Châteaux. Estamos atrás apenas na valorização, no marketing”, sublinhou a empresária de Fernando Pó, concelho de Palmela.
“Manuel João de Freitas Júnior foi um homem que esteve na família, os homens morreram muito cedo nesta família e as mulheres foram fortes e aguentaram uma casa agrícola que veio dar lugar, na minha gestão, à Casa Ermelinda Freitas e que tornou isto possível, mas que ficou completamente abafado pelas mulheres e nunca mais ninguém falou nele”, lembrou Leonor Freitas.
Para a empresária, esta é “a grande justiça” que a família lhe devia. “Ele foi um homem com uma grande visão. Quando eu nasci, em Fernando Pó, onde vivia toda a minha família, não havia luz elétrica nem acessibilidades, e Lisboa, a 50 quilómetros, era tão longe que nem imaginam”, recordou emocionada, acrescentando que “o meu pai tinha muita visão e queria diferente. Eu fui estudar, a minha mãe foi a primeira mulher com carta de condução. Embora tenha sido há quase 70 anos, eu nunca senti a discriminação entre o homem e a mulher na minha casa”.
“Nesta casa sempre ouviram falar do papel das mulheres e é uma realidade. Fala-se da minha bisavó, da minha avó, da minha mãe, Dona Ermelinda, eu que sou a falsa Ermelinda, porque sou Leonor, mas também me chamam Ermelinda, e começa-se a falar na quinta geração, que há mais uma mulher, a Joana, que vai assumir a gestão, e eu achei que era muito injusto não fazer uma homenagem ao meu pai”, concluiu.
Olga Noronha explicou o trabalho artesanal na elaboração do rótulo da garrafa, banhado a ouro, e da caixa que a envolvem cheia de simbolismo ligado ao patriarca como uma bicicleta usada por ele para se deslocar ao norte do país para tomar conhecimento do que se fazia a nível de vinhos. O “Destemido” tem “uma história constituída por quatro símbolos, uma bicicleta, um fluxo de vinho que corre nas veias e nas paredes desta casa, um traçado que delimita a península de Setúbal e o trajeto que Manuel João Freitas Júnior fazia, aos seus 20 anos, ao norte, dentro das suas possibilidades”. “Esta garrafa e o seu estojo não serão descartáveis, mas um relicário da joia da coroa da Casa Ermelinda Freitas, o produto mais nobre e maior empenho que o Jaime Quendera alguma vez concebeu, e a concretização de um sonho desta casa”, disse ainda a artista.
Jaime Quendera sublinhou que “quando pensei no vinho, tinha duas certezas, uma era homenagear o grande senhor de Setúbal, a região mãe do Castelão, e a outra é que tinha de ter um pouco de syrah, que está muito ligado à imagem da Casa Ermelinda Freitas”. “Tenho a sorte de trabalhar com uma casa que tem mais de 550 hectares de vinha, das quais 100 vinhas velhas de Castelão, com mais de trinta castas, dando a possibilidade de muita escolha”, disse ainda o enólogo, explicando que optou por um castelão de 2021, da vinha velha, e com “muito trabalho e aventura”, juntou outras castas, tendo ficado um ano em estágio. “Um vinho ainda jovem que tem vinte anos pela frente, com uma intensidade de aromas”.

