Varinos: das raízes da Murtosa à alma de Setúbal

Este texto nasce da convivialidade, da memória partilhada e dos reencontros dos descendentes da comunidade varina que, ao longo de várias gerações, fez dos bairros de Santos Nicolau e das Fontainhas o seu lugar de pertença, de trabalho, de fé e de vida.

Mais do que uma evocação do passado, procura prestar homenagem às mulheres e aos homens que vieram da Murtosa, de Estarreja e de outras terras da Ria de Aveiro para construir em Setúbal uma nova casa, sem nunca esquecer as suas raízes. É também uma forma de celebrar os laços de amizade, cultura e memória que continuam a unir Setúbal às terras de onde partiram tantas famílias varinas.

Os dois bairros guardam ainda hoje marcas profundas dessa presença humana e cultural. Nas suas ruas, nos seus pátios, nas suas tradições e nas suas memórias permanece viva a identidade de uma comunidade que ajudou a moldar o rosto popular da cidade de Setúbal.

A Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia constitui talvez a expressão mais visível dessa herança. Mais do que uma celebração religiosa, representa também um património afetivo, cultural e comunitário que atravessou gerações e continua a reunir famílias, amigos e descendentes das antigas gentes varinas.

Que este testemunho contribua para preservar essa memória coletiva e para recordar que os bairros das Fontainhas e de Santos Nicolau não pertencem apenas ao passado. Continuam vivos nas pessoas, nos afetos e nas tradições que fazem de Setúbal uma cidade de memória, de encontro e de esperança.

PARTE I Fontainhas e Santos Nicolau — Dois Bairros, Um Só Coração

Queridos amigos das Fontainhas e de Santos Nicolau, meninos e meninas de ontem, hoje homens e mulheres que o tempo foi acariciando com cabelos brancos, rugas de experiência e alguns dentes a menos, mas que continuam a guardar nos olhos a luz viva das ruas onde cresceram. Que alegria é voltarmos a encontrar-nos. Cada reencontro é como regressar à nascente da própria vida. É revisitar os lugares onde aprendemos a sonhar, a partilhar e a pertencer. Por isso, aqui deixo uma palavra de gratidão à Comissão Organizadora, ao Núcleo do Bairro de Santos Nicolau, ao Joaquim Patanisco, ao Clube Desportivo Os Amarelos que tornaram possível estes dois momentos de convívio e de memória.

Aqui estamos. Cada rosto traz consigo um pedaço da história dos nossos bairros: o eco das brincadeiras nas ruas, na barreira e no cais das Fontainhas, os pregões das mães e das avós às janelas, os cheiros do peixe assado nas brasas dos quintais, as festas, as brincadeiras, os risos partilhados e as amizades que o tempo não conseguiu apagar. As Fontainhas e Santos Nicolau não foram apenas lugares onde morámos. Foram escolas de afetos, cais de solidariedade e berços de uma gente que aprendeu cedo que a pobreza pode existir sem nunca empobrecer o coração. Hoje celebramos muito mais do que um espaço geográfico. Celebramos uma memória coletiva, uma herança recebida dos nossos pais e avós, uma forma de viver que moldou gerações e uma cidade.

Somos das Fontainhas. Somos de Santos Nicolau. Dois bairros, mas um só coração. Duas margens da mesma história. Uma só comunidade, unida pelo rio, pelo mar, pela fé e pela solidariedade. Ao evocarmos o passado, regressam-nos as imagens das vielas estreitas cheias de vida e de vozes. As ruas eram o recreio das crianças, o seu mundo e a sua escola.

Regressam-nos também os pátios onde homens, mulheres, velhos e novos se sentavam lado a lado a amanhar as redes. Mãos experientes ensinavam mãos jovens. Enquanto os dedos trabalhavam, as conversas corriam livres, partilhando histórias, cantigas, alegrias, preocupações e conselhos. Ninguém estava verdadeiramente sozinho. Havia sempre lugar para mais um à mesa. Sempre uma porta aberta. Sempre uma vizinha pronta a ajudar. Sempre um ombro disponível nos momentos difíceis.

Era uma comunidade tecida pela entreajuda, tão forte quanto as redes preparadas para a próxima maré. Cada um de nós transporta ainda dentro de si a criança que foi. A criança que sonhou, que aprendeu o valor da amizade e que descobriu, nesses mundos, o verdadeiro significado das palavras pertença e comunidade. Por isso, que este reencontro seja muito mais do que um almoço de convívio. Que seja um abraço de memória. Uma ponte entre o passado e o presente. Um testemunho vivo para os mais novos de que há lugares que nunca saem de dentro de nós. Porque os bairros onde fomos felizes continua sempre a morar no coração de cada um.

PARTE II As Gentes Varinas: Uma História de Trabalho, Fé e Comunidade

No início do século XX, os bairros de Santos Nicolau e das Fontainhas pulsavam ao ritmo das marés do Sado e das sirenes das fábricas conserveiras. Ali vivia uma comunidade singular, formada maioritariamente por famílias oriundas da Murtosa e de Estarreja, que trouxeram para Setúbal os seus saberes, as suas embarcações, as suas tradições, os seus modos de pensar e de ver o mundo, bem como uma notável capacidade de trabalho.

Os varinos chegaram atraídos pelas oportunidades oferecidas pela pesca e pela crescente indústria conserveira. Instalaram-se na zona oriental da cidade, transformando profundamente a vida económica, social e cultural de Setúbal.

No rio, distinguiam-se pelas suas embarcações de fundo chato, herdadas da tradição da Ria de Aveiro. O varino, a bateira murtoseira e o saveiro navegavam pelos esteiros e bancos de vasa do Sado com uma destreza que rapidamente se tornou reconhecida. As proas elevadas, pintadas com cores vivas e motivos religiosos, refletiam não apenas uma técnica de construção naval secular, mas também uma forma de entender a vida, onde o trabalho e a fé caminhavam lado a lado.

Enquanto os homens enfrentavam o rio e o mar, as mulheres sustentavam uma parte essencial da economia familiar. Operárias das fábricas conserveiras, trabalhavam longas horas em condições difíceis. A qualquer momento, a sirene podia soar anunciando a chegada do peixe. Então, deixavam os afazeres domésticos ou saltavam da cama a qualquer hora da noite e corriam para os seus postos de trabalho, onde passavam horas a descabeçar, preparar e enlatar sardinha, cavala ou atum. Recebiam salários muito inferiores aos dos homens e suportavam jornadas que frequentemente se prolongavam pela madrugada dentro. Apesar disso, revelaram uma extraordinária capacidade de resistência.

Em 1911, participaram numa das mais importantes greves operárias da história portuguesa, exigindo melhores salários e condições de trabalho. A memória dessas mulheres permanece ligada à luta pela dignidade laboral e pela justiça social. A vida familiar organizava-se em torno de uma verdadeira rede de solidariedade. Nos pátios das Fontainhas e nos quintais de Santos Nicolau, as portas permaneciam abertas. As vizinhas cuidavam dos filhos umas das outras, partilhavam refeições, emprestavam alimentos e ajudavam-se mutuamente nos momentos de dificuldade. Era uma forma de sobrevivência construída sobre a confiança e a fraternidade.

As crianças cresciam nesse ambiente comunitário. A infância era curta. Muitos meninos, aos sete anos de idade, começavam a acompanhar os pais na pesca, aprendendo a remar, a conhecer os segredos do rio e a remendar redes. As meninas ajudavam nas tarefas domésticas, cuidavam dos irmãos mais novos e, muitas vezes, ingressavam nas fábricas conserveiras por volta dos nove anos. A escola era frequentemente sacrificada perante as necessidades económicas da família.

Apesar da pobreza, as ruas e os pátios enchiam-se de brincadeiras. Com pedaços de madeira, cortiça, latas vazias e restos de materiais encontrados junto ao cais ou às fábricas, as crianças construíam barcos, bonecas e carrinhos de rolamentos, feitos com tábuas de caixotes de peixe descartados e rolamentos velhos obtidos nas oficinas das traineiras, com os quais os rapazes se lançavam ladeira abaixo. As latas vazias das conservas, atadas com cordéis, serviam de andadores. As pequenas pedras polidas pelo mar ou as caricas das garrafas transformavam-se em berlindes improvisados, disputados na terra batida das ruas. Não faltavam o jogo do eixo, o «lá vai alho» e da apanhada. Os recantos das antigas muralhas ofereciam esconderijos perfeitos para longas partidas que reuniam dezenas de crianças do bairro. Entre as raparigas, dominavam os jogos do lencinho, da barca bela, da macaca, do jogo da semana, do saltar à corda — muitas vezes utilizando pedaços de cabos velhos esquecidos pelos pescadores — e do tradicional «Mamã, dá licença».

Mas a água e o cais eram as maiores atrações, autênticas extensões naturais do quintal das crianças. Nos dias quentes da primavera e do verão, os mergulhos do cais ou os saltos das embarcações atracadas estavam garantidos para a rapaziada de todas as idades. O rio Sado tornava-se simultaneamente escola, local de trabalho e espaço de aventura.

A Igreja de São Sebastião ocupava um lugar central na vida da comunidade varina. Era muito mais do que um templo religioso. Era um espaço de encontro, de consolo e de identidade coletiva. Ali realizavam-se batizados, casamentos, velórios e outras celebrações que marcavam as diferentes etapas da vida.

A devoção a Nossa Senhora do Rosário de Tróia assumiu particular importância entre os varinos. Todos os anos, a preparação da festa já era, por si só, uma festa, iniciada com o Tríduo celebrado na Igreja. A procissão que conduzia a imagem da Virgem até à Doca das Fontainhas mobilizava toda a comunidade. As embarcações eram cuidadosamente engalanadas para transportar e acompanhar a Senhora através do estuário até à Caldeira de Tróia. Durante três dias, as famílias instalavam-se em barracas improvisadas no areal. As mulheres organizavam a complexa logística da estadia, transportando alimentos, água, panelas e utensílios nas bateiras e nos saveiros. Cozinhavam para dezenas de pessoas. Cumpriam-se promessas, agradeciam-se as bênçãos recebidas e celebrava-se a proteção concedida. Mas também se brincava, novos e velhos, corpos em festa, irmanados pela mesma devoção, alegria e tempo de lazer. À noite, a areia transformava-se num imenso arraial iluminado por fogueiras e candeeiros Petromax. Comia-se e bebia-se, saudando a Mãe do Céu e São Pedro. Os sons dos acordeões e da gaita de beiços embalavam as danças e as cantigas herdadas da Murtosa, bem como os fados inspirados na vida operária de Setúbal. Na manhã de domingo, após as celebrações religiosas, que culminavam na procissão pela praia e no recolhimento dos santos, acendiam-se fogueiras e organizavam-se sardinhadas coletivas onde ninguém ficava excluído. A alegre algazarra do almoço amainava durante as limpezas e os preparativos para o regresso ao bulício do arraial. A subida ao pau de sebo, os jogos de futebol entre solteiros e casados e, já com a maré cheia, as regatas das bateiras, onde homens e mulheres competiam entre si, constituíam alguns dos momentos mais aguardados. Todos conviviam livremente e em segurança, vivendo aqueles dias como um raro tempo de liberdade e felicidade. No regresso a casa, o Círio pela baía do Sado e as preces da despedida enchiam de lágrimas os rostos dos varinos, que viviam profundamente aquela festa como um dos aniversários da sua fé e do seu coração.

Ao longo das décadas, a comunidade varina preservou muitos dos hábitos e costumes trazidos da terra natal. O traje tradicional, os cantares, a gastronomia, as formas de falar e os valores de solidariedade continuaram presentes nas ruas de Santos Nicolau e das Fontainhas.

Foi deste povo moldado pelo sal, pela fadiga e pela esperança que emergiu João Maria Afonso Lopes, homem simples entre gente simples, destinado a tornar-se uma das figuras mais queridas da memória coletiva varina. O querido Ti João Sacristão. Antigo pescador, homem de profunda fé e grande dedicação à comunidade, desempenhou um papel decisivo na revitalização da Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia a partir de 1945. Foi com a ajuda dos seus camaradas pescadores e das mulheres operárias conserveiras que conseguiu mobilizar toda a comunidade para preservar uma tradição simultaneamente religiosa e profana, que ainda hoje constitui um dos mais valiosos patrimónios culturais de Setúbal e uma das suas mais significativas atrações turísticas.

Setubalenses-Murtoseiros são uma memória que continua viva – Porque as Fontainhas e Santos Nicolau são muito mais do que dois bairros da cidade. São um património humano. Uma memória viva. Uma comunidade de afetos. E uma das mais belas expressões da alma popular setubalense. Que as gerações futuras saibam guardar este legado com o mesmo amor com que os nossos antepassados o construíram. Porque quem conhece as suas raízes caminha com mais segurança no presente e ousa a ousadia de construir futuros. Há lugares que nunca deixamos verdadeiramente para trás. Habitam em nós, para sempre. Talvez por isso faça sentido que esta memória encontre também expressão num gesto simbólico de gratidão e de futuro. Que a Câmara Municipal de Setúbal possa considerar a geminação com a Vila da Murtosa, terra-mãe de tantos homens e mulheres que ajudaram a erguer uma parte significativa da identidade setubalense. Seria um abraço de reconhecimento entre margens que a vida uniu. Uma homenagem à coragem dos varinos que cruzaram terras, águas e destinos, trazendo consigo saberes, cultura, fé, trabalho e esperança. Seria uma ponte de cooperação cultural, educativa e patrimonial, capaz de fortalecer os laços históricos que continuam a unir as duas comunidades. Porque a história não vive apenas daquilo que recordamos; vive também daquilo que escolhemos ser e honrar. E quando duas terras reconhecem a força dos laços que as unem, transformam a memória em futuro.

Que o Sado e a Ria de Aveiro continuem, assim, a conversar através das suas gentes. Que as águas que um dia transportaram sonhos continuem a ligar corações. E que Setúbal e a Murtosa, unidas pelo trabalho, pela fé e pela memória dos seus filhos, saibam manter acesa esta herança comum, para que o tempo nunca apague aquilo que a gratidão deve conservar para sempre.

Conceição Lopes

Setubalense-murtoseira

Professora e investigadora Universidade de Aveiro