Nuno Cruz foi eleito presidente da União de Freguesias de Setúbal nas eleições autárquica de 12 de outubro de 2025, pelo PS, tomando posse no dia 3 de novembro. Após tomar posse, Nuno Cruz, afirma que encontrou uma junta de freguesia com “uma situação financeira complexa”. “Existe uma dívida por parte da câmara municipal de 413 mil euros e perto de 230 mil euros de despesas que estão por pagar”, afirma o autarca que acusa a anterior presidente da junta de freguesia, Fátima Silveirinha (CDU) de preferir “olhar para o cartão de militante do PCP e não defendeu os interesses da União das Freguesias de Setúbal”. O autarca promete cuidar e limpar o espaço público, melhores condições operacionais para os trabalhadores e pagar as dívidas existentes. Pretende uma porta de diálogo com a atual presidente do município para resolver o problema da dívida e em prol da melhoria das condições de vida dos seus fregueses.
Florindo Cardoso
Setúbal Mais – Tomou posse há um mês como presidente da União de Freguesias de Setúbal. Em que situação encontrou a autarquia em termos de organização e a nível financeiro?
Nuno Cruz – Permita-me em primeiro lugar, agradecer em nome do executivo, a possibilidade de dar esta entrevista.
A junta de freguesia tem uma situação financeira complexa, mas que se explica de forma muito simples. Existe uma dívida por parte da câmara municipal de 413 mil euros e perto de 230 mil euros de despesas que estão por pagar. A dívida da câmara municipal à junta de freguesia é referente ao acerto de contas das competências transferidas da autarquia para nós.
O que nós gostávamos de saber é por que razão existe esta dívida. Por que razão o executivo anterior não defendeu os interesses da junta de freguesia e não exigiu que o ex-presidente, André Martins saldasse a dívida. A CDU é a única responsável pela situação. Infelizmente, Fátima Silveirinha preferiu olhar para o cartão de militante do PCP e não defendeu os interesses da União das Freguesias de Setúbal.
O que fez não foi política com pessoas de verdade, foi política de interesse partidário, colocou os interesses do PCP à frente da população da nossa freguesia. Connosco isso nunca acontecerá.
Sobre a organização da junta, bem, podemos usar quantas edições do vosso jornal para explicar a falta de gestão que existia dentro da junta? E não, não foi por responsabilidade dos trabalhadores, esses já começaram em apenas um mês, a mostrar que possuem competências para fazer um bom trabalho. Mas quando temos gestores políticos sem visão, estratégia e capacidade de gerir recursos públicos, o resultado é o que encontrámos. Desde a falta de procedimentos para a realização das tarefas, ausência de regulamentos indispensáveis para a gestão de recursos humanos, ausência de um plano de formação, incapacidade de controlar a assiduidade dos trabalhadores, ausência de um plano de carreira entre outras tantas coisas que já detetámos.
Em breve, no local certo, vamos explicar aos fregueses porque vamos ter de gastar uma quantia avultada para resolver um conjunto de irregularidades que a ex-presidente e o seu executivo cometeram.
Setúbal Mais – A anterior presidente da junta já desmentiu que deixou dívida de 200 mil euros, mas compromissos orçamentais legalmente assumidos. Como reage?
Nuno Cruz – Não reajo! Não vou perder mais tempo a explicar à senhora ex-presidente procedimentos simples de contabilidade. Agora que tem mais tempo livre, pode inscrever-se num dos bons cursos que o IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional) tem nessa área, e aprender mais um pouco como gerir uma instituição pública. Com tão boa gestão, ainda me questiono como ficaram em quarto lugar nas últimas eleições. Bem, e não tivemos o PSD a concorrer, senão, não sei.
Setúbal Mais – Também acusa o anterior executivo da CDU, liderado por André Martins, de não pagar 413 mil euros à junta de freguesia, deixando a mesma sem capacidade para cumprir com as suas obrigações contratuais?
Nuno Cruz – É factual. Já ouviu alguém desmentir? A questão é, e como é que o anterior executivo da União de Freguesias não fez nada para exigir esses pagamentos? O problema passou para a atual presidente, Maria das Dores Meira, que não tem culpa da situação, é verdade, mas que connosco, assumiu o compromisso de encontrar uma forma de pagar essa dívida. Da nossa parte, vamos até às últimas consequências para que a junta seja ressarcida desse valor, mesmo percebendo que existem dificuldades financeiras na autarquia.
Setúbal Mais – Em que situação estão os pagamentos ao movimento associativo e aos fornecedores em geral?
Nuno Cruz – Bem, estamos a focar-nos no passado, e eu prefiro falar do futuro, daquilo que queremos fazer, de como vamos reverter a situação.
É simples, devemos 23.500 euros ao movimento associativo e 200 mil euros a empresas prestadoras de serviços, dos quais, 150 mil já expiraram o período de pagamento e outra parte irá expirar nos próximos dias, sem que nós tenhamos liquidez financeira para os pagar na íntegra.
Sabia que a Fátima Silveirinha culpou as associações por ainda não terem recebido o apoio financeiro? Será que também irá fazer um vídeo a desmentir?
Setúbal Mais – Em relação à não realização do almoço de Natal para os idosos e a entrega de cabazes de Natal para os trabalhadores, por motivos que diz não ser possível por motivos financeiros, é uma situação que o magoa como presidente de junta?
Nuno Cruz – Não há nem havia nenhum almoço de Natal para idosos. Na passagem de pastas, a ex-presidente disse-me que não tinham realizado o almoço no Dia do Idoso e que pretendiam fazer em dezembro, após as eleições.
O que eu disse anteriormente, é que não havendo liquidez financeira, não podíamos assumir a realização desse evento. Então as pessoas querem gestores competentes a gerir os dinheiros públicos e íamos fazer um almoço que depois não íamos pagar? Com este executivo isso não irá acontecer.
No futuro, faremos tudo que tenhamos capacidade de pagar. Seja para idosos, crianças ou outro público. O dinheiro público tem de ser usado com racionalidade, não podemos gastar mais do que aquilo que temos.
Temos uma freguesia para limpar, temos o espaço público no estado em que está e temos de cuidar dele, temos um parque escolar envelhecido e que precisa com urgência de intervenções para garantir a segurança e o conforto dos nossos alunos, e, temos muita erva por toda a freguesia para cortar, essa tal erva que o PCP achava que desaparecia por pura magia do mágico Luís de Matos (não é uma piada para o ex-presidente de São Sebastião e pelo qual tenho enorme estima).
E temos com urgência de planear o futuro da junta de freguesia de forma a que deixe de pagar 90 mil euros de alugueres de instalações velhas e sem qualidade, e apostar na construção de um polo operacional digno do seu nome, de um auditório de médias dimensões, uma sede que dê condições de trabalho e bom atendimento aos fregueses, um pavilhão desportivo, e um espaço dedicados às artes. Isso sim, é aquilo que nos faz trabalhar todos os dias com a máxima motivação.
Setúbal Mais – Perante este quadro que encontrou na junta de freguesia quais vão ser as suas prioridades? É possível cumprir o seu programa eleitoral?
Nuno Cruz – Bem, acho que acabei de enumerar os nossos principais compromissos ao nível de infraestruturas, faltou apenas fazer a referência ao projeto O Balneário, um espaço que pretende acolher pessoas que por exemplo, sofram de violência doméstica.
Mas para já, além de estabilizar as contas da junta de freguesia, queremos limpar melhor o território, fazer aquelas pequenas obras, mas tão importantes para a segurança de quem usa as nossas calçadas, em especial, as pessoas mais idosas, e já estamos a pensar em como vamos eliminar tanta, mas tanta erva que já está a crescer por todos os bairros.
Com os recursos humanos que temos neste momento, e com pouco dinheiro para adquirir serviços junto de prestadores de serviços, vamos mesmo ter de ser muito criativos para cortar toda a erva que não para de crescer.
Setúbal Mais – Como pretende resolver o problema da falta de condições das instalações do polo operacional e melhorar as condições de trabalho dos trabalhadores?
Nuno Cruz – Hoje, a União das Freguesias possuí quatro polos operacionais. Usamos uma garagem em Vanicelos, um espaço cedido pela câmara Municipal dentro do Jardim de Vanicelos e onde chove lá dentro; um espaço alugado na Rua General Daniel de Sousa, em que pagamos uma renda mensal bem elevada; e três armazéns no Grelhal que custam mais de 40 mil euros anuais e que não possuem, em minha opinião, condições mínimas de conforto para quem lá trabalha.
Pergunto eu, e onde está a visão a longo prazo? São Sebastião e muito bem, apostou em instalações próprias, modernas e com conforto, e nós? O que fez o executivo anterior? Preferiu gastar perto de 90 mil euros anuais em alugueres de instalações.
Bem, a partir de maio já teremos menos um aluguer, vamos poupar mais de 8 mil euros. É esse o caminho, projetar o futuro das nossas instalações, dotando a junta das devidas condições financeiras para avançar com esses investimentos.
Espero um dia poder dizer que fomos responsáveis pela modernização das instalações da junta, instalações viradas para os desafios futuros.
Permitam-me apenas referir que o ano passado, o executivo anterior adquiriu por aluguer, uma instalação à APSS (Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra) que está em tão mau estado, que o investimento que lá terá de ser feito, será mais de 50% do valor que custaria fazer uma instalação nova. E o contrato prevê em poucos anos, devolver a instalação ao Porto de Setúbal. Acha mesmo que isto é boa gestão? Pois, eu acho que é pura incompetência.
Setúbal Mais – Qual a sua expectativa em relação à nova presidente do município na relação com a junta de freguesia?
Nuno Cruz – Já esperava essa pergunta, mas ainda bem que a faz. Recentemente, disse noutra entrevista, que não morro de amores pela presidente da câmara. Isso não significa mais do que aquilo que eu sou, uma pessoa sincera e que diz sempre o que pensa. Quem me conhece, sabe que prefiro a frontalidade a respostas cordialmente corretas.
Não morro de amores por questões do passado recente, mas isso faz parte do passado e de outras “novelas”. Se perguntar à presidente da autarquia, verá o que pensa de mim, por isso, só temos de respeitar, enquanto adultos que somos, a opinião um do outro.
Qual é a minha expectativa? Bem, se já tivéssemos reunido à data em que dei esta entrevista com a presidente, seria mais fácil de responder, mas no mínimo, acredito que será um desafio interessante.
Nunca fechei a porta ao diálogo, ao trabalho de cooperação mútua. Até acredito que podemos todos fazer um excelente trabalho em prol da população. Mas para que isso aconteça é preciso, de uma vez por todas, que a nova presidente interiorize que os presidentes do PS não estão aqui para estragar o trabalho do município, não pretendem boicotar os serviços camarários, não querem fazer oposição ao executivo liderado pela Maria das Dores. Bem, só posso falar por mim, mas acredito que os meus colegas do PS, e igualmente da CDU, pretendem fazer um trabalho de excelência e sempre em sintonia com a câmara, nunca deixando, claro, de vincar as suas posições. Afinal, todos temos programas eleitorais para cumprir.
Esperava outra resposta diferente e que desse um bom título? Talvez numa próxima entrevista.
Setúbal Mais – Qual a mensagem que deixa aos trabalhadores da junta de Freguesia?
Nuno Cruz – Tal como dissemos no dia em que fizemos a reunião geral, os trabalhadores comprometidos com o serviço público, focados nos objetivos definidos pelo executivo, dedicados e que “vistam” com orgulho o emblema da freguesia, podem contar com toda a solidariedade do novo executivo. Estaremos sempre ao lado dos trabalhadores nos melhores e nos piores momentos, e jamais usaremos os mesmos para jogos políticos, em que apenas fica mal na fotografia o partido que neste momento os está a usar para colocar trabalhadores contra trabalhadores e o executivo. Como diz o nosso lema, com todos e para todos.
Nuno Cruz, um setubalense de gema
Paixão pelo desporto, movimento associativo e política
Nuno Cruz, natural de Setúbal, pai de dois filhos, tem 47 anos. Foi eleito presidente da União de Freguesias de Setúbal a 12 de outubro de 2025, sendo uma das surpresas da noite eleitoral ao conquistar esta autarquia à CDU.
Após ter completado o 1. ° Ciclo do Ensino Básico na Escola das Laranjeiras e o 2.° Ciclo na Escola Básica 2,3 do Bocage, terminei o ensino secundário na Escola Secundária do Viso, atualmente designada por Lima de Freitas.
Com 9 anos de idade, os seus pais resolveram deixar o Bairro do Montalvão e foram viver para o Bairro Novo do Casal das Figueiras, bem perto do conhecido “O Casarão”. No Casal das Figueiras, o autarca guarda as melhores recordações de infância. Cresceu e aprendeu que viver num bairro social, ingressando no movimento associativo muito cedo, tendo feito parte de vários órgãos sociais da Associação de Moradores do Bairro do Casal das Figueiras.
Após completar o ensino superior, abraçou a carreira de Técnico Superior de Desporto na Câmara Municipal de Setúbal e, entre 2009 e 2022.
Sendo a Gestão a sua área de trabalho preferida, sentiu a necessidade de aprofundar os meus conhecimentos e em 2022, após a frequência do mestrado de Gestão de Organizações Desportivas da Faculdade de Motricidade Humana, completou o mestrado em Ciências Empresariais-Ramo Pequenas e Médias Empresas, na Escola Superior de Ciências Empresariais. No mesmo ano, passou a exercer funções de Técnico Superior no Instituto Português do Desporto e Juventude, tendo esta mudança permitido conhecer outras realidades e outros modelos de gestão das diversas autarquias que compõem a Direção Regional de Lisboa e Vale do Tejo.
No desporto, continua a “fazer” a dar voltas de bicicleta e a praticar atletismo. Na política, é membro do Secretariado da Comissão Política da Concelhia do Partido Socialista em Setúbal, e exerceu funções de vereador, sem pelouro, eleito pelo PS, na Câmara Municipal de Setúbal.




