O organista João Santos, acompanhado da soprano Manuela Moniz (com uma extensa formação em música), deu um concerto a 7 de junho na Igreja de São Sebastião, em Setúbal, onde tocou o harmónio de Mustel, um instrumento do séc. XIX, com um som celestial. Este concerto promovido pelos Amigos da Paróquia de São Sebastião, integrou o movimento de redescoberta do harmónio de arte em Portugal, procurando reabilitar a sua imagem e revelar a riqueza expressiva de um instrumento injustamente esquecido e frequentemente incompreendido e do qual foram construídos 300 exemplares e calcula-se que só existem 100 em funcionamento. Este harmónio pertence ao convento de Montariol, com o qual João Santos desenvolveu uma parceria e desenvolve uma campanha para o seu restauro integral.
João Santos, licenciado em Música Sacra pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, destaca-se nacional e internacionalmente nas áreas de órgão e composição e já realizou concertos em locais como as catedrais de Notre Dame, em Paris e de Westminster, em Londres. Desde 2020 investiga sobre o harmónio de arte em Portugal e fundou o “fort’Expressivo”, atelier de música. Faz parte doa equipa de organistas na Basílica de Mafra e é diretor do Coro Carlos Seixas, em Coimbra.
Setúbal Mais – Como surgiu a hipótese de tocar este harmónio de Mustel?
João Santos – Depois de descobrir o universo do harmónio em 2020, iniciei um projeto de valorização e reativação deste instrumento em Portugal. A coleção que tenho vindo a construir no atelier “fort’Expressivo” começou com um primeiro Mustel, proveniente da Ilha de Man (Reino Unido), ao qual se seguiram outros instrumentos, incluindo um piano Érard de 1912, adquirido em França. O Orgue-Célesta que atualmente utilizo em concerto foi um verdadeiro achado, resultado de uma visita casual ao convento franciscano de Montariol, em Braga. Importa sublinhar que este instrumento está apenas à minha guarda, fruto de um protocolo de valorização celebrado com a comunidade franciscana. Uma parceria viabilizada sobretudo graças à visão do guardião do convento, Frei António Vinhas.
Dessa colaboração nasceram já dez concertos em várias regiões do país. É uma parceria que não me canso de elogiar e que espero sirva de exemplo para outras situações semelhantes. Existem muitos instrumentos em risco, simplesmente por estarem esquecidos ou entregues à inércia.
Setúbal Mais – Pode contar a história do instrumento e a sua importância?
João Santos – Em 1842, Alexandre Debain patenteou o harmónio, culminando uma longa procura por um teclado capaz de oferecer controlo expressivo total. Graças à vibração das palhetas livres sob pressão de ar, o harmónio permitiu uma expressividade comparável à de instrumentos de arco ou de sopro. Entre os inúmeros construtores, destacou-se Victor Mustel, que desenvolveu o conceito de Harmonium d’Art, concebido para a interpretação artística e dotado de uma riqueza tímbrica e expressiva sem paralelo. Mais tarde, em 1886, o filho Auguste Mustel inventou a Célesta, um metalofone que encantou Tchaikovsky e que foi utilizado, com exclusividade, na estreia de “O Quebra-Nozes”. Em 1889, Auguste concretizou a fusão entre o harmónio e a célesta, criando o Orgue-Célesta, um instrumento verdadeiramente singular. Apenas cerca de 300 unidades foram fabricadas e estima-se que, atualmente, apenas cerca de 100 estejam ainda em funcionamento.
Quanto ao exemplar que utilizo, o concerto na Igreja de São Sebastião foi dedicado a José Luiz Fernandes de Castro Júnior (1859–1940), que terá sido o seu primeiro proprietário. Segundo Francisco de Mendia, sobrinho do atual Conde de Resende e bisneto de José de Castro, é possível que este instrumento tenha sido adquirido com a intenção de ser oferecido ao seu sogro, o Visconde de Pereira Machado, no Porto. A data da compra, 7 de junho de 1902, foi identificada graças a documentação preservada nos arquivos Mustel, em Paris. Este concerto assinalou simbolicamente os 123 anos desta aquisição.
Setúbal Mais – Tem uma campanha de apoio para a sua recuperação. Como podem as pessoas ajudar?
João Santos – Sim, estou a desenvolver uma campanha de angariação de fundos para proceder ao restauro integral do instrumento, a cargo de um especialista em França. Quem desejar contribuir pode fazê-lo através da plataforma GoFundMe (https://gofund.me/6ac9ddf8), por MBWay (962 358 220) ou por transferência bancária para o IBAN: PT50 0035 2046 0000 2284 5303 3. Qualquer contributo, por mais modesto que seja, representa um passo importante para devolver vida a esta peça rara do património musical.
Setúbal Mais – Como tem sido a reação do público ao som celestial do harmónio?
João Santos – A receção tem sido extraordinariamente positiva. No final dos concertos, é comum o público manifestar grande surpresa e entusiasmo ao descobrir a riqueza sonora e expressiva que um instrumento aparentemente modesto é capaz de oferecer. Esse deslumbramento é comparável ao impacto que o harmónio de arte causou no final do século XIX e início do século XX. Tenho encontrado, nas fontes da época, críticas musicais redigidas com enorme reverência e num nível de linguagem muito elevado, algo que raramente vejo aplicado a outros instrumentos. Brevemente será publicado um artigo da minha autoria, com cerca de 60 páginas, que se debruça precisamente sobre esta presença e receção do harmónio em Portugal.
Setúbal Mais – É um apaixonado por instrumentos musicais. Este é a sua “joia”?
João Santos – A minha formação de base é em Música Sacra e o órgão é o meu instrumento principal. No entanto, a descoberta do harmónio como instrumento autónomo foi uma revelação que me apanhou desprevenido e a possibilidade de contribuir para o seu renascimento tem sido profundamente gratificante. O Orgue-Célesta é, sem dúvida, a joia do atelier. Contudo, há outras “joias” igualmente valiosas que permanecem esquecidas, encerradas em espaços húmidos e sem uso. A parceria com o convento de Montariol demonstra que é possível devolver dignidade a estes instrumentos e reintegrá-los na vida musical contemporânea, com benefícios para todos. O meu objetivo é precisamente esse: reabilitar a imagem do harmónio e revelar ao público o potencial expressivo de um instrumento ainda pouco compreendido e subvalorizado, inclusive no meio artístico.

Igreja de São Sebastião
Concerto e Primavera encanta público
Os Amigos da Paróquia de São Sebastião promoveram o “Concerto de Primavera” com o objetivo de angariar receitas para o restauro do património da igreja. Neste evento, João Santos e Manuel Moniz encantaram o público com obras de Chausson, Hahn, Fauré e Gounod, arranjadas por João santos, conferindo-lhe um carácter orquestral. Da autoria Karg-Elert, que chamou este harmónio, “um milagre de instrumento”, foi interpretado “Consolações (1918), precedidas por uma tocante versão do hino “Mais perto de vós, meu Deus”, composto em 1912 para homenagear as vítimas da tragédia do Titanic, ocorrida nesse ano.
Tratou-se um de um magnifico concerto, com um som único, que não deixou ninguém indiferente. O som celestial aliado ao cenário da bela igreja e à esplendida voz de Manuel Moniz, tornaram este concerto, num evento inesquecível.

