Clemente está de regresso com “Festival”, um novo EP editado pela País Real que reúne três temas marcantes do Festival da Canção e da Eurovisão: “O Vento Mudou”, “Playback” e “Conquistador”. O cantor setubalense fala sobre este novo êxito que poderá ter também suporte físico e dar seguimento a um novo trabalho discográfico com mais canções do Festival RTP da Canção.
Florindo Cardoso
Setúbal Mais – Como é que surgiu a ideia de lançar este EP “Clemente – Festival”?
Clemente – Este EP tem três canções, “O Vento Mudou”, “Playback” e “Conquistador”. Eu sou da geração em que o país parava para ver o Festival da RTP da Canção. Eu já tinha a ideia de fazer este projeto há alguns anos e surgiu agora a ocasião. O Paquito Rebelo, que é o CEO da editora “País Real”, concordou imediatamente porque é também uma forma de homenagear pessoas que foram tão importantes na música portuguesa.
Escolhi estas canções dentro de um critério, que considero que poderiam, no seu ano, ter ganho o Festival da Eurovisão e são verdadeiramente canções muito boas. Nós sabemos que, durante muitos anos, Portugal na Eurovisão era só mais um número, porque devido às condições que tínhamos, jamais poderíamos ganhar o festival. E quando ganhámos, curiosamente, é quando a RTP comemora 60 anos. E sobre isso havia muito a dizer, mas eu fico-me por aqui, porque sei como é a estratégia dos festivais. Porque participei em nove, e muitas vezes, antes dos festivais começarem na sua fase final, o vencedor já está definido.
Setúbal Mais – Este EP é uma homenagem aos artistas?
Clemente – Através deste EP quis homenagear os artistas, porque, em relação ao “Vento Mudou”, cantada por Eduardo Nascimento, eu tenho uma admiração pelo Nuno Nazaré Fernandes. Aliás, a capa do meu disco “Cantigas que o povo fez”, a edição portuguesa, as fotografias são da autoria do Nuno Nazaré Fernandes. Além de ser escritor de canções, tem um curso de arquitetura, sendo uma pessoa com muito bom gosto e quis homenageá-lo, gravando esta canção. O “Vento Mudou” é realmente uma canção muito boa que eu gosto muito.
O Daniel Duarte fez uns arranjos fantásticos para este EP e estou muito contente com o resultado. Aliás, acho que estas canções reviveram devido ao seu arranjo musical. O trabalho ficou muito bom e estou muito grato por isso.
A segunda canção é o “Playback” que ganhou o Festival da RTP da Canção em 1981. O “Playback” porque, nos anos 80, fiz muitos espetáculos com o Carlos Paião, que era uma pessoa excecional.
Conheci o Carlos Paião depois dele já ter lançado o “Playback”. O Carlos Paião era no seu tempo, o maior escritor de canções. Nós olhando para a obra que o Carlos escreveu, tão curta e tudo tão bom. Desde o “Senhor Extraterrestre” que escreveu para a Amália Rodrigues com aquela ironia toda. Quis homenagear o Carlos também por um motivo que muito pouca gente sabe. Tínhamos combinado ele escrever canções para um LP para mim. Ele foi representar Portugal ao Festival de Yamaha. Um ano depois de mim. Eu fui em 1984, ele foi em 1985, onde ouviu a canção “Tão Longe, Senhora”. E, no Japão, disseram maravilhas a meu respeito. O Carlos, quando chegou a Portugal, disse-me que não sabia que tinha tantos fãs no Japão. Depois começámos a falar e concordámos que ele iria fazer o LP que, infelizmente, nunca foi feito. Fiquei com muita pena. Mas tenho as melhores memórias possíveis do Carlos.
Setúbal Mais – E “O Conquistador”?
Clemente – Escolhi-a por uma razão muito simples. É uma canção que fala das conquistas de Portugal para o mundo. Vivemos um tempo onde há muita gente que pretende denegrir a história de Portugal. O que é mais escandaloso é que são portugueses que acham que a história dessa época portuguesa das descobertas é plenamente racista e colonialista quando eu não estou nada de acordo com isso. Porque era o tempo em que vivíamos.
Todas as grandes nações da Europa estavam, nessa altura, a tentar ganhar possessões pelo mundo inteiro. Portugal fomos os primeiros com este empenho todo. E, portanto, acho que a história de Portugal deve ser vivida, contada e tem que se fazer uma apologia do que é. E o Ricardo Landum e o Pedro Luís dos “The Vinci” escreveram esta canção para o Festival de 1989.
Para já, acho que a canção tinha que ganhar o Festival da Eurovisão. E depois, porque acho que esta canção é realmente muito boa. Não é por acaso que quando a Eurovisão às vezes faz o best-off, o conquistador aparece no meio dessas canções.
Portugal não ganhou porque nesse tempo não havia dinheiro para investir. Eu vou aqui, também, a propósito do Festival RTP, contar aqui uma coisa que a maior parte das pessoas também não sabe. A Dulce Pontes foi representar Portugal em Roma com a “Lusitânia Paixão”. O maestro da Dulce Pontes foi o Fernando Correia Martins com quem eu trabalhei imenso, fiz muitos discos e espetáculos. Portanto, trabalhei imenso com o Fernando Correia Martins. E o Fernando Correia Martins disse-me que o maior embaraço da vida dele foi chegar para a Eurovisão em Roma, onde todos artistas tinham um disco da canção que iam representar e Portugal foi para a Eurovisão sem disco, sem nada. Sem promoção nenhuma. A Dulce foi assim lançada aos leões, mas acontece que a Dulce Pontes é aquela pessoa virtuosíssima com aquela voz fantástica. Aquilo foi a abertura também da porta para ela em Itália onde ela faz imensos concertos.
Pretendi fazer aqui também uma homenagem ao Festival RTP que faz parte da memória de todos nós.
Setúbal Mais – Nos seus espetáculos qual é a sensação das pessoas?
Clemente – Eu cantei durante a tournée de verão e foi a melhor sensação possível. O medley com as três canções é uma viagem que acaba tudo num grande êxtase. As pessoas a cantarem todas. O “Vento Mudou” já menos, porque é muito mais antigo. É a quarta canção de Portugal na Eurovisão. Estamos a falar de 1967. Portanto, vai lá longe. As pessoas não têm muita memória. Mas depois do “Playback” e do “Conquistador”, as pessoas cantam o refrão, que é perfeitamente cantável. E portanto, tem corrido da melhor maneira.
Setúbal Mais – O EP poderá ser lançado em suporte físico?
Clemente – O projeto, que é digital, nesta altura, vou aqui também avançar, vai ser lançado em suporte físico. Este projeto vai vir num disco físico, mais para a frente. Considero que isto tem muitas pernas para andar, porque eu entro logo na lista das canções mais tocadas da editora “País Real”. Ocupo logo o primeiro lugar na semana em que o disco sai.
Entro na lista da Apple Music, como canção no dia em que saiu, no dia 25, ao lado dos grandes nomes mundiais, eu consigo entrar nessa lista. Portanto, estou muito satisfeito com este trabalho, como se deve ficar, claro.
Setúbal Mais – Coloca a hipótese de gravar mais canções do Festival?
Clemente – Por minha vontade, eu quero cantar mais porque há outras canções que são fantásticas, não vou aqui dizer quais são, por segredo. Há muita canção que pode ser recordada. Há algumas até que nem ganharam o festival, mas que são fantásticas. Há coisas que não ganharam o festival nos anos 60 e 70, que são realmente autênticas relíquias de canções de música ligeira. Portanto, sim, tenho muita vontade de continuar por este caminho.
Clemente lança novo EP “Festival
Três músicas do Festival da Canção
O popular cantor setubalense, de música ligeira portuguesa, Clemente está de regresso com “Festival”, um novo EP editado pela País Real que reúne três temas marcantes do Festival da Canção e da Eurovisão: “O Vento Mudou”, “Playback” e “Conquistador”.
“Festival” é uma homenagem às memórias, aos autores e às músicas que marcaram diferentes gerações, recuperando três temas que se destacaram nos palcos do Festival da Canção e que fazem parte do imaginário da música portuguesa.
É também uma homenagem às memórias, aos autores e às músicas que marcaram diferentes gerações, recuperando três temas que se destacaram nos palcos do Festival da Canção e que fazem parte do imaginário da música portuguesa.
Clemente recorda que “quando miúdo, a pequena sala/casa de jantar de nossa casa enchia-se de vizinhos para assistirem aos Festivais da RTP e Eurovisão, já que éramos dos poucos, ao tempo, com essa caixa mágica a que se chamava televisão”.
Os Festivais tornaram-se, assim, momentos muito especiais da sua infância e adolescência. Clemente acompanhava as canções, prendia-as e cantava-as, sem imaginar que, anos mais tarde, abraçaria a música profissionalmente e que algumas dessas mesmas canções fariam parte do seu percurso enquanto cantor.
É precisamente dessa memória que nasce “Festival”, um trabalho que Clemente apresenta como uma homenagem a alguns dos autores que teve o prazer de conhecer ao longo da sua carreira e que deram vida a canções vencedoras do Festival RTP.
Na sua perspetiva, são temas que, pela sua qualidade e identidade, poderiam e deveriam ter alcançado um reconhecimento ainda maior no Festival Eurovisão, levando a música ligeira portuguesa além-fronteiras, numa época em que a música ainda não tinha a dimensão e o alcance proporcionados pelo mundo digital.
Para esta nova interpretação dos temas, Clemente contou com os arranjos de Daniel Duarte, que assumem um papel de destaque na sonoridade do EP e dão uma nova vida a estas canções tão marcantes.
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