Setúbal

Alexandrina Pereira, presidente da Casa da Poesia de Setúbal: “Abdiquei de muitos dos meus projetos para me dedicar à Casa da Poesia durante uma década”

Alexandrina Pereira vai deixar a presidência da Casa da Poesia de Setúbal após desempenhar funções durante dez anos. “Agora é tempo de pensar em mim, mas sempre sem esquecer os outros”, sublinha Alexandrina Pereira, que faz um balanço positivo do trabalho desenvolvido, dando como exemplos a publicação de antologias poéticas, concursos de poesia de homenagem a Maria Adelaide Rosado Pinto, atividades com escolas e lares de idosos, encontros, conferências. A responsável destaca a entrega da Medalha de Mérito do município de Setúbal, os Vinhos Solidários que ajudaram sete instituições com 20 mil euros.

Florindo Cardoso

Setúbal Mais – Qual o balanço que faz destes 10 anos de presidência da Casa da Poesia?

Alexandrina Pereira – Muito positivo. Foram 10 anos com múltiplas atividades e todas elas em prol da comunidade. Envolvemos várias escolas e muitas instituições de solidariedade social. Com os nossos eventos trouxemos até Setúbal grandes figuras da cultura nacional, como por exemplo Eugénio Lisboa, Luísa Ducla Soares ou Laborinho Lúcio.

Nestes 10 anos participámos em inúmeros momentos poéticos respondendo a convites que nos chegaram de parceiros com os quais nos comprometemos, assim como com as diversos freguesias e instituições com as quais temos um intenso intercâmbio cultural. Organizámos exposições de pintura no espaço anexo à nossa sede (Centro de Recursos Educativos e Culturais). Assinámos um termo de responsabilidade com a família Rosado Pinto por nos ter confiado o espólio da professora de música e poetisa Maria Adelaide Rosado Pinto. Assinalando o aniversário desta nobre setubalense, promovemos os 1.º e 2.º Concursos de Poesia, envolvendo alunos de várias escolas do distrito e que culminaram com a entrega de prémios no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.

Sob a minha direção a Casa da Poesia elaborou conferências, homenageou figuras da nossa cidade e de nível nacional, (José Afonso, Calafate, Bocage, Sophia de Mello Bryner, David Mourão Ferreira, José Carlos Ary dos Santos…)

Foram publicadas oito antologias, homenageando assim nomes como Sebastião da Gama, Maria Adelaide Rosado Pinto, Bocage, António Maria Eusébio (O Calafate), Frei Agostinho da Cruz e ainda, após a pandemia do covid-19, publicámos “Diário de Tempos Estranhos” e, porque a poesia é sempre um grito de alerta, editámos “Direitos Humanos – Um Sublime Poema à Vida”.

Setúbal Mais- A Casa da Poesia tem um trabalho reconhecido pela sociedade como a Medalha da Cidade. Considera que foi um dos pontos altos destes 10 anos?

Alexandrina Pereira – Considero a atribuição da Medalha de Honra da cidade à Associação Casa da Poesia de Setúbal, um merecidíssimo reconhecimento pelo trabalho desenvolvido. Sinto um imenso orgulho no trabalho que levámos a efeito em prol da cultura poética, até como pretexto para a sua conjugação com a solidariedade social. Poderíamos ter sido apenas um grupo de amantes da poesia que se reunissem para escrever e ler essa expressão literária (tão mal amada), mas não fomos por esse caminho e marcámos a diferença. Saímos para a rua. Fomos ao encontro das pessoas. Divulgámos poemas de vários poetas setubalenses, e não só, em rótulos de garrafas de vinho de uma casa prestigiada a nível nacional e internacional (Casa Ermelinda Freitas), com o intuito de ajudar outras instituições. Ao longo de 10 anos tivemos apenas o apoio de 500 euros anuais atribuídos pela União das Freguesias de Setúbal, mas nestes mesmos 10 anos ajudámos sete instituições sociais distribuindo mais de 20 mil euros entre elas, com o imprescindível apoio da Dra. Leonor Freitas e de sua família.

Setúbal Mais – Os Vinhos Solidários é um dos projetos mais conhecidos. Como surgiu esta ideia e quais e quantas instituições já apoiou?

Alexandrina Pereira – Nos nossos estatutos consta no artigo 3.º a vertente solidária. Numa pesquisa na internet encontrei um site poético com o título “Vinhos à Mesa”. Constava de encontros de poetas em lugares de convívio e as garrafas com os vinhos que eram servidos tinham no rótulo um poema. Achei a ideia original e levei-a a uma reunião de direção defendendo que seria boa ideia para um projeto solidário. Conhecendo de há muitos anos e de outros lugares, Leonor Freitas, e sabendo da sua generosidade, apresentei-lhe a nossa ideia que, não sendo surpresa, a acarinhou, e foi o início deste evento que tantos momentos de alegria trouxe à Casa da Poesia de Setúbal. Alegria, principalmente pela possibilidade que tivemos de contribuir com alguma ajuda para instituições que, por sua vez, ajudam tantas pessoas. Aproveitaríamos também para homenagear a poesia e os poetas. Só assim faria sentido a nossa iniciativa: poesia e solidariedade de mãos dadas. No ano de 2015 realizámos os primeiros “Vinhos Solidários” a favor da Cáritas Diocesana de Setúbal, no ano seguinte apoiámos a Clínica Social Dentária, em 2018, a APPDA Setúbal (Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo). Parámos dois anos devido à pandemia covid-19 e voltámos em 2021 apoiando a Liga Portuguesa Contra o Cancro (delegação de Setúbal), seguindo-se em 2022 a Casa do Gaiato de Setúbal. Em 2023 o apoio foi para a CASA – Centro de Apoio aos Sem-Abrigo e no meu último ano como presidente tivemos o prazer de apoiar uma associação que merece de todos nós não só apoio como respeito e agradecimento: a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. O evento “Vinhos Solidários” deu assim apoio a sete instituições, pelas quais distribuímos mais de 20 mil euros. Somos pobres, mas com o coração cheio de orgulho e a alma em paz envolta em poesia. Só assim sei estar na vida. Digo “Sei estar” e não digo “sabemos estar”, porque existe um ego em muitos poetas que não os liberta para a solidariedade. Lá no Céu, Zeca Afonso já lhes retirou o cunho de poetas.

Setúbal Mais – Que outros projetos quer destacar?

 Alexandrina Pereira – Todos os projetos que levámos a efeito tiveram muito impacto nas nossas atividades. “De Pequeno se Faz o Poeta” foi de uma riqueza cultural sem fim. Levámos a poesia às escolas e trabalhámos com muitas crianças de escolas dentro e fora da cidade.

Formámos também um grupo a que chamámos “Voluntários dos Afetos” e visitámos muitos lares de idosos ficando mais ricos com o que aprendíamos com eles,  porque se aprende muito quando recebemos gratidão em troca de uns momentos de afecto.

 “A Casa da Poesia ConVida”, evento regular que realiza-se na Biblioteca Municipal e que permitiu trazer grandes nomes da poesia, da politica e da cultura, como Eugénio Lisboa, David Mourão Ferreira (filho) , D. José Ornelas e tantos outros.

Também o nosso anual “Encontro Nacional de Poesia” teve impacto na nossa cidade. Tivemos connosco no primeiro Encontro o grande poeta Joaquim Pessoa, e no ano seguinte algumas poetisas vindas de Espanha. Outros lhe seguiram, tais como os ultra-premiados Xavier Zarco e António Canteiro.

O caminho até aqui:

“Deixo a associação de cabeça erguida”

Alexandrina Pereira recorda a fundação da associação e as dificuldades encontradas ao longo deste percurso. “Para estarmos próximos da poesia devemos sair por momentos do que escrevemos, deixar de ler ‘apenas’ a nossa poesia”, confessa a poetisa.

Em 2014, foram quatro os mentores que fundaram a Associação Casa da Poesia de Setúbal. Passados pouco mais de dois anos três deles saíram. Os motivos foram vários, sendo que dois deles não abdicaram do seu próprio ego, (sempre o ego a comandar as pessoas), e o outro por incompatibilidades várias. Sou a primeira a reconhecer que não é fácil abdicarmos de nós em prol dos outros. Resumindo: Ficando apenas eu, enfrentei o dilema: Saio também e morre o sonho? Ou sigo em frente e “construo” a Casa da Poesia?

Decidi seguir em frente e passados que foram dez anos, deixo a presidência de cabeça erguida e orgulhosa do caminho que fizemos. Foi fácil? Não! Seria fácil se eu pretendesse uma Casa fechada em si mesma, mas os meus sonhos eram outros: Levar a poesia para a rua. Nem todos os elementos que constituíram as direções seguintes aprovavam as minhas ideias. Nem todos aprovaram os “Vinhos Solidários”, nem todos (dirigentes e associados) se disponibilizavam para concretizar os projetos a que nos propúnhamos, mas, mesmo sendo poucos, fizemos muito. Hoje dou por mim a pensar: Fiquei num barquito a remos a tentar levá-lo quase sozinha a um cais seguro e passados todos estes anos, deixo um navio de cruzeiro que é olhado por todos com admiração e respeito. Não fiz a caminhada sozinha e agradeço muito aos que foram fazendo parte deste percurso. Tomei a decisão de sair do cargo de presidente de direção por sentir que é chegado o momento de deixar ao leme outro “comandante”. Quem me vai suceder, foi convidado por mim e foi de imediato aceite pelos outros elementos e isso basta para saber que este “filho” que ajudei a crescer vai continuar a evoluir e a merecer a atenção dos setubalenses. Abandono o leme, mas não o barco.

Setúbal Mais – Considera que as pessoas, em geral, estão mais próximas da poesia?

Alexandrina Pereira – Confesso que não sei responder. Pessoalmente tentei que assim fosse, e na sociedade em geral penso que conseguimos, porém, saio destes 10 anos em que presidi a esta associação com a sensação de que falhei noutro campo. Não que não tivesse tentado, mas confesso que é muito difícil levar os próprios associados a “aproximarem-se” mais da poesia. Para estarmos próximos da poesia devemos sair por momentos do que escrevemos, deixar de ler “apenas” a nossa poesia. Estarmos mais próximos da poesia é muito mais que isso: é ler outros poetas, é assistirmos a momentos de poesia em que outros poetas são o foco de atenção. Só assim nos engrandecemos e ficamos “por dentro” da poesia. Foi assim a minha evolução. Lendo poesia de outros poetas. Quem o não fizer fica apenas a conhecer-se a si próprio e esse egocentrismo não os deixa crescer culturalmente. Chego a assistir a encontros poéticos em que alguns (muitos) batem palmas sem nada terem ouvido, porque estão concentrados em si próprios, à espera da sua vez de lerem o seu poema. Neste campo eu fracassei, por não ter encontrado o antídoto contra o ego.

As nossas intervenções poéticas foram muito intensas em vários lugares da cidade. O facto de colocarmos poemas no gradeamento da Escola Conde Ferreira em momentos especiais, a honra de lermos Sebastião da Gama nos lugares por onde ele passou, ou o orgulho de ler Bocage no dia da cidade, foram momentos que nunca esquecerei. Quero acreditar que a Poesia chegou mais às pessoas.

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