Fernando José vai ser o candidato do PS à presidência da Câmara Municipal de Setúbal nas eleições autárquicas de 2025, após a votação por larga maioria da concelhia socialista, ratificando a escolha do secretário-geral dos socialistas, Pedro Nuno Santos. Paulo Lopes será candidato do PS à presidência da Assembleia Municipal de Setúbal. Fernando José, nasceu em Setúbal, tem 52 anos, é licenciado em Direito e Pós-Graduado em Direito do Trabalho e Segurança Social e deputado na Assembleia da República. Em 2021, liderou a candidatura autárquica do PS, ficando a três mil votos de vencer as eleições e retirando a maioria absoluta à CDU. Para Fernando José, nos últimos 20 anos da CDU “gastaram-se milhões para deixar tudo na mesma”. O candidato aposta em melhorar o espaço público e a higiene urbana, simplificação administrativa, a construção de um pavilhão multiusos e de passadiços na Arrábida, o regresso da Feira de Sant’Iago ao centro da cidade, renegociar o contrato de concessão com a DataRede, impedindo o avanço para bairros residenciais. Muito crítico da gestão da CDU, apela ao voto no PS para uma mudança, defendendo Setúbal como “um polo central na criação de emprego qualificado e na atração de riqueza que potencie o nosso território como verdadeira capital de distrito”.
Florindo Cardoso
Setúbal Mais – Quais as principais razões que o levaram a candidatar-se à presidência da Câmara de Setúbal pela segunda vez?
Fernando José – Para quem nasceu, cresceu e vive em Setúbal, a candidatura à Câmara Municipal de Setúbal é uma honra e um privilégio. Agradeço, por isso, a confiança que a Comissão Política Concelhia e o secretário-geral do Partido Socialista depositaram em mim, e que é também o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido por todos os autarcas do PS.
Os motivos que me levaram a aceitar o desafio de ser candidato em 2021 não mudaram até hoje. Pelo contrário: em 2025, estão reforçados. Setúbal continua a ser um concelho com um imenso potencial desaproveitado. Um concelho onde o poder autárquico se resignou a embelezar, a ornamentar – e neste último mandato nem isso.
Setúbal precisa de sangue novo e de uma nova visão, de ambição e de compromisso, de confiança e de mais e melhor mobilidade para todos, da Gâmbia a Azeitão. Precisa de ter o seu espaço público cuidado, mas também de habitação a preços justos para as famílias e para os nossos jovens. Precisa de atrair investimento que crie emprego qualificado e gere riqueza, que fixe os nossos jovens e potencie a cidade.
Setúbal Mais – Quais as ideias e projetos que o PS defende para o concelho?
Fernando José – A nossa proposta para o concelho pretende implementar novas dinâmicas quer ao nível da gestão corrente, quer da estratégia de investimento.
Em primeiro lugar, o espaço público e a higiene urbana. Tenho 52 anos e não tenho memória de ver o espaço público tão sujo e degradado como nestes últimos anos. Não há desculpas que justifiquem a acumulação de lixo, a falta de limpeza, o abandono das ruas e dos jardins.
Depois, a simplificação administrativa. As juntas de freguesia e a câmara municipal são os órgãos da administração pública mais próximos do cidadão, mas quando alguém precisa de uma informação, de fazer um pedido ou efetuar uma reclamação tem dificuldade em sentir que é ouvido ou em perceber o ponto de situação. Os trabalhadores do município fazem o melhor que podem com os meios que têm, e por isso é necessário dotá-los de melhores ferramentas que permitam desburocratizar e facilitar o acesso dos cidadãos ao município.
É igualmente fundamental melhorar a mobilidade no concelho, não só no que respeita à fluidez do tráfego, mas também na criação de bolsa de estacionamento de longa duração nas áreas tarifadas, na criação de parques de rebatimento gratuitos e no incentivo à utilização do transporte público sempre que possível. As intervenções que foram feitas no espaço público nos últimos 15 anos só serviram para afunilar o trânsito, e há vias onde ao fim da tarde é impossível circular. Ora, isso não se resolve deslocando viadutos ou embelezando rotundas. Da mesma forma que o acesso à Mitrena não se resolve sem uma via alternativa, que descongestione o trânsito no imediato e permita uma via de fuga e de acesso ao socorro em caso de sinistro. Em Setúbal, nos últimos 20 anos, gastaram-se milhões para deixar tudo na mesma.
Quanto ao investimento, é preciso falar de duas vertentes – o investimento público e o investimento privado. Setúbal não tem sido capaz de atrair investimento que gere riqueza e crie emprego qualificado. Isso significa que formamos jovens no nosso Politécnico que se vêm obrigados a trabalhar fora do concelho, assim como outros que aqui cresceram e foram estudar para fora. E o que resulta daí? A opção mais racional para quem trabalha fora, para mais quando olhamos para os valores da habitação em Setúbal, é fazer as malas e mudar-se. Setúbal tem paisagens lindas, mas as paisagens não põem comida na mesa nem pagam contas no fim do mês. É preciso mudar este paradigma. O porto de Setúbal, as acessibilidades rodoviárias e ferroviárias e a centralidade de Setúbal dão a este concelho um potencial tremendo que o município não tem sabido potenciar e aproveitar. É à Câmara Municipal que compete definir a estratégia de desenvolvimento que quer para o concelho e depois ir bater à porta das empresas, sem vergonha nem complexos, e afirmar “Olhem, aqui está o lugar ideal para fazerem os vossos investimentos, com condições para atraírem e reterem talento, com bases de trabalho articuladas com a Academia, com acessos fáceis para exportarem os vossos produtos”. Setúbal não se pode resignar a viver só do turismo e da indústria pesada.
Mas também é preciso falar (e muito!) de investimento público. Nos últimos 20 anos não vimos no concelho um investimento municipal que fosse efetivamente transformador deste território. Não vimos um! Há investimentos que são fundamentais para a atratividade do concelho, mas também para a sua vivência. Falo, por exemplo, da criação de um pavilhão multiusos que atraia a realização de espetáculos culturais, de congressos, exposições e outras iniciativas de média e grande dimensão, e que Setúbal não tem hoje condições para acolher. Mas refiro-me também aos passadiços da Arrábida – um projeto icónico que pretende criar uma acessibilidade pedonal e ciclável que ligue as nossas praias e que seja um fator de atratividade e mobilidade deste território. E, já que falo de praias, queremos que a praia da Saúde seja uma verdadeira praia urbana, com condições de segurança que hoje não existem para a prática balnear.
E queremos, também, que a Feira de Sant’Iago regresse ao centro da cidade. Temos o plano desenhado e sabemos que é possível que já em 2026 a nossa feira volte a ser uma referência regional e nacional. Essa mudança não passa só pela localização – a feira tem de ser uma mostra do que de melhor se faz em Setúbal, da nossa indústria e de todo o tecido económico, mas também do melhor que temos na ligação ao rio, ao mar e à náutica de recreio. No entanto, é inegável que o centro da cidade é basilar para implementar essa nova dinâmica e a alteração de conceito. É preciso que feira seja atrativa para quem é de cá, mas também para quem nos visita. A hotelaria e restauração das duas margens do Sado é fundamental para o sucesso da feira e para a atração de cada vez mais visitantes e expositores.
Setúbal Mais – A CDU governa o município de Setúbal há duas décadas. Tem sido bastante crítico em relação a esta gestão. Na sua opinião, quais são os problemas desta gestão da CDU?
Fernando José – Podia começar por falar das promessas megalómanas da anterior presidente, e que foram dos hotéis de 5 e 6 estrelas ao Terminal 7, passando pela marina da Macau Legend, pela Cidade do Conhecimento e pelos mais de 6 milhões de euros que se gastaram na aquisição da praça de touros e do IMAPARK sem que para lá alguma vez tenha existido um projeto; ou podia começar pela inércia do atual executivo na melhoria da mobilidade no concelho ou na limpeza e higiene urbana. Podia, até, elencar aquele que é o legado da CDU para a cidade, um legado conjunto de André Martins e Dores Meira: a concessão do estacionamento tarifado por mais de 40 anos e com um aumento de 500% no número de lugares tarifados.
Mas mais do que falar sobre a gestão da CDU, sobre a gestão de Dores Meira e de André Martins, o que importa verdadeiramente aos setubalenses e azeitonenses é virar a página e falar do futuro. O que importa é demonstrar que a candidatura do PS não vem para ganhar por ganhar, não vem para deixar tudo na mesma. Queremos efetivamente trabalhar pela cidade, pelo concelho, e temos demonstrado isso mesmo ao longo de todo este mandato.
Setúbal Mais – Como vê o surgimento da antiga presidente, agora como independente?
Fernando José – Em democracia é salutar que os cidadãos tenham opções e possam escolher em liberdade. E é isso que vai acontecer em 2025: os setubalenses e azeitonenses vão ser chamados s escolher entre a alternativa de passado que Dores Meira representa – a alternativa das promessas que nunca passam do papel, da política do botox e do descontrolo financeiro do município – e a alternativa de futuro representada pelo PS, com um projeto transformador do concelho, sem preconceitos e com muita vontade de melhorar a vida de quem aqui vive e trabalha.
Setúbal Mais – E sobre as suspeitas que pendem sobre Dores Meira?
Fernando José – Factos são factos e estão suportados em documentação da Câmara Municipal de Setúbal. Sabemos o que ali está e o que representa em termos judiciais. Caberá, pois, à justiça fazer o seu papel. São processos que estão a correr em auditoria na autarquia e paralelamente em investigação em curso pelo Ministério Público e na Autoridade de Auditoria da Inspeção Geral de Finanças. Sobre esse tema e por agora, nem mais uma palavra. À justiça o que cabe à justiça, pois na lavagem de roupa suja aprendemos muito sobre os podres do passado, mas nenhuma luz de esperança para o futuro e Setúbal não pode continuar amarrada a este triste fado ou voltar ao passado.
Setúbal Mais – Que mensagem gostaria de deixar aos munícipes para que vejam no PS uma alternativa?
Fernando José – Aos setubalenses e azeitonenses quero deixar uma mensagem de confiança, determinação e ambição. Confiança num futuro melhor e num novo ciclo que em breve terá início. Determinação para mudar e construir um concelho com melhor mobilidade para todos, com habitação a preços justos para as famílias e para os nossos jovens e onde o espaço público é cuidado. Ambição para tornar Setúbal um polo central na criação de emprego qualificado e na atração de riqueza que potencie o nosso território como verdadeira capital de distrito. Não nos basta que Setúbal seja bonita. Este é o tempo para deixar de sonhar e fazer acontecer.

Fernando José quer negociar com a empresa:
“Não excluímos a possibilidade de resgatar o contrato” com a DataRede
O candidato do PS promete resolver o problema do estacionamento tarifado na cidade de Setúbal. Crítico do contrato celebrado com a DataRede por 40 anos pelo anterior executivo da CDU, liderado por Maria das Dores Meira, Fernando José que renegociar o mesmo, e em último caso, se for necessário, resgatar. Defende bolsas de estacionamento de longa duração, com bilhete único, e a criação de bolsas de estacionamento exclusivas para residentes e a redução de 1.800 lugares ao contratualizado.
Setúbal Mais – Um dos principais problemas apontados pelos munícipes é o estacionamento tarifado. O PS promete apresentar soluções para resolver este problema?
Fernando José – Contestámos esta concessão desde o primeiro momento, não só por se tratar de uma concessão por 40 anos e que condiciona a gestão da cidade por duas gerações, mas também (e acima de tudo) pelo brutal aumento do número de lugares tarifados, em mais de 500% face ao que existia na cidade. Mas, como sabe, não nos limitámos a contestar. Temos apresentado, ao longo deste mandato, um conjunto de propostas que visam mitigar o impacto do contrato que Dores Meira promoveu e assinou e que André Martins validou, como por exemplo a criação de uma grande bolsa de estacionamento de longa duração, com bilhete diário, na avenida Luísa Todi (a poente do largo José Afonso), a criação de bolsas de estacionamento exclusivas para residentes que correspondam a 10% dos lugares tarifados, e a redução de 1.800 lugares em relação ao que está contratualizado (impedindo a expansão dos parquímetros a bairros residenciais e onde a pressão de estacionamento não se faz sentir). Isto obriga, naturalmente, a uma negociação séria com a DataRede, e não excluímos a possibilidade de resgatar o contrato. O atual executivo promoveu o incumprimento da concessionária (o estacionamento no subsolo, a construir na av. Luísa Todi, é disso exemplo), e caiu em descrédito pela inabilidade negocial que sempre demonstrou. Os setubalenses sabem que não existem soluções mágicas, mas sabem também que o PS sempre se opôs aos termos desta concessão de forma determinada e que é o único partido que propõe alterações credíveis ao contrato de concessão.
Setúbal Mais – Outros problemas são os acessos às praias, quer à Arrábida devido ao corte de trânsito entre Figueirinha e Galapos e também a Tróia devido ao elevado preço das viagens. Estas são questões que o PS pode tentar resolver caso ganhe as eleições?
Fernando José – Na Arrábida, é imperioso encontrar uma solução que permita retomar tão breve quanto possível a circulação entre a Figueirinha e Galapos. O corte de trânsito ocorreu há dois anos e acompanhamos as preocupações de segurança que estão na sua origem. O que não percebemos nem aceitamos é que, decorrido todo este tempo, continuemos sem solução à vista, e não permitiremos que em 2026 a Câmara de Setúbal, o Ministério do Ambiente, o ICNF e o proprietário do terreno onde se encontra o bloco rochoso continuem sentados à mesa e à espera que ele caia. Por outro lado, e quando este problema estiver resolvido, queremos avaliar outro modelo de circulação na serra.
O acesso a Tróia está condicionado pelos termos da concessão à Atlantic Ferries e que, como sabe, é feita pela APSS. O avanço em termos de mobilidade que conquistámos com a criação do Passe Navegante foi fundamental, mas ficou limitado à circulação dentro da Área Metropolitana de Lisboa. Os concelhos de fronteira da AML, como Setúbal, têm movimentos pendulares relevantes com os seus vizinhos que não integram a AML, e Tróia, no concelho de Grândola, é disso exemplo. Tenho defendido ao longo dos anos, em Setúbal como autarca e na Assembleia da República como deputado, a necessidade de integrar os concelhos de fronteira no Passe Navegante e permitir que se atravesse o Sado ao mesmo preço a que nos deslocamos para Lisboa.

