Quinta na serra da Arrábida: Capela de Nossa Senhora de El Carmén está a ser recuperada

A Capela d’El Carmen, inserida na quinta com o mesmo nome, sita em plena Arrábida, na freguesia de Azeitão, está a ser recuperada, graças à iniciativa da proprietária e de angariação de verbas através de eventos solidários.

Maria Gertrudes Engrossa, responsável pelo imóvel, explica o objectivo é conseguir verbas para ajudar nas obras. “Já restaurámos a cobertura que estava com problemas de infiltrações” e seguem-se agora “o restauro das pinturas”, afirma. “Já não se faziam obras na capela há quarenta anos”, lembra a responsável, salientando que estas intervenções são muito caras e não contam com apoios financeiros nem de materiais. “As câmaras poderiam ajudar com material”, lançando o repto Maria Gertrudes Engrossa, uma alentejana apaixonada pelo património e pela Arrábida.

A ermida de Nossa Senhora de El Cármen, situada na encosta da serra da Arrábida, foi mandada construir por volta de 1560 por Madalena Giron, 2ª duquesa de Aveiro devido à grande devoção que tinha pela Senhora do Carmo e para que nunca se duvidasse que a sua fundadora era espanhola. Segundo alguns historiadores, já teria existido nesse local uma ermida denominada da Senhora do Carmo, a qual se tomou centro de romarias quando o 1º duque de Aveiro, a pedido de Frei Martinho, conseguiu que os círios se dividissem por diferentes capelas, honrando assim Nossa Senhora não só na Igreja da Arrábida mas também nas Ermidas do Cabo Espichel e da Nossa Senhora do Carmo. Assim, a interferência da duquesa na edificação da ermida teria consistido na ampliação da capela e na construção de vastas instalações destinadas ao alojamento dos caçadores e suas montadas, por ocasião das caçadas na Serra da Arrábida e, ainda, às do ermitão e do capelão encarregados da sua conservação e funcionamento.

A imagem de Nossa Senhora de El Carmen ocupa um nicho no meio do retábulo da referida ermida, sendo uma imagem de roca e de vestidos ricos e com pouco mais de quatro palmos de altura. Esta imagem da Senhora de El Carmen foi sempre venerada pelos povos da vizinhança, que faziam bailes e representações junto à ermida. Na capela houve círios de Setúbal, de Azeitão e das Pedreiras de Sesimbra que tiveram origem no facto do primeiro Duque de Aveiro, ter determinado que os Círios da Arrábida se espalhassem pelas capelas da Serra para que “Frei Martinho tivesse mais sossego… “. Em 1892 Oliveira Parreira escreveu assim: “(…) faz-se nessa capela uma festa anual onde todos os cabreiros da serra se banqueteiam e divertem ao som da tradicional gaita de foles… ”

Actualmente, na aldeia de Pedreiras é celebrada, no penúltimo fim-de-semana de Agosto, festa em honra da Nossa Senhora D’el Carmen.  O percurso da aldeia até ao palácio  d’el Carmen é efectuado de autocarro, sendo o menino Jesus trazido a sua mãe pelo círio das Pedreiras, colocado ao colo de sua Mãe, seguindo-se a missa em honra da Nossa Senhora, terminando com pic-nic. Na aldeia a festa é preparada com a decoração do largo em torno do edifício que alberga a réplica da imagem da Santa, não faltando animação com baile e convívio. A aldeia orgulha-se em não deixar desaparecer uma herança de fé inabalável neste oculto secular.

Na ermida de El Carmen venerava-se também, até ao seu roubo em 1974, a imagem de Nossa Senhora da Pinha. Segundo a lenda, um homem, preso de ciúmes, tentara matar a mulher, muito devota da Senhora de El Carmen; fingindo uma romaria, ali se dirigiu com ela. Descansando sob um grande pinheiro nas imediações da capela, e vendo-se a sós com a mulher, tentara matá-la a golpes de faca, mas logo uma pinha o atingiu na mão que segurava a arma; e levantando o olhar viu a Senhora que, num halo de luz, tinha já outra pinha pronta para lhe atirar.